O PENSADOR: Rapsodo para um encantamento desencantado
- 14 de out. de 2015
- 4 min de leitura

O poeta é a pimenta do planeta (malagueta).
Hebert Viana
A arte poética é uma invenção maravilhosa do ser humano que oferece o vislumbre do mundo e da vida pelo olhar da beleza, da fantasia e magia, isto é, a partir da experiência estética: parte da filosofia voltada para a percepção a respeito da beleza sensível que se revela no mundo e no homem. É conhecido, além disso, que a poesia, mais do que vislumbre da beleza, configurou-se, sobretudo nos gregos arcaicos, como a
licerce da educação, da formação desse homem grego. A arte poética, para os gregos arcaicos (bárbaros), ainda não tomados pelo impulso da racionalidade socrática (período clássico), revelava um mundo obra de arte; o que fortemente contrasta com o mundo visto pela ótica socrática (grego clássico), que passa a ver o mundo com o olhar do cientista, um olhar raciocinado da vida.
A arte da interpretação poética se mostra, nesse período anterior ao mundo visto através da razão humana, como possibilidade de captar a vida através da arte. Os rapsodos – intérpretes dos poemas – tinham um papel fundamental na construção desse universo das significações artísticas do mundo. Por isso, a arte de interpretar um poema era visto como algo muito importante na era Grécia antiga, tanto que fazia parte dos jogos olímpicos e considerado um dos principais esportes. Como dito anteriormente, a poesia era muito importante para a formação do homem grego; sobretudo porque trata da sensibilidade humana: a dimensão do pensamento que expressa o desejo pelo belo, pelo sublime e pelo gosto; expressões que estão inseridas na dimensão da arte.
É justamente nessa perspectiva que a recitação e a repetição dos poemas épicos faziam parte de uma tradição em que os rapsodos reproduziam em público os mitos heroicos que formavam o pensamento dos gregos. O sentido era desenvolver o lhar artístico sobre a vida, sobre o homem, sobre o mundo. Ora, o encantamento da poesia serve de tempero para a vida e, além disso, para nós contemporâneos da era científica e tecnológica, a poesia e as artes emergem como possibilidade de reencantamento de um mundo vazio de significado. Nas palavras de Nietzsche em o Nascimento da Tragédia: “de ver a ciência com a ótica do artista, mas a arte com a da vida”.
Assim, a arte e o poeta se tornam a pimenta malagueta de uma transmissão estética da vida na sua dimensão imaginária. Nas palavras de Aninha da ponte (Cora Coralina) “poeta é também quem lê e admira poesia”. Nesse sentido, todos que se laçam nesse mar de significações e interpretações a partir da construção estética das palavras, somos de certa forma, rapsodos. Todos somos rapsodos na medida em que nosso olhar para o mundo se torne um olhar como quem vê a natureza, a vida e o homem como obras de arte, e não com o velho olhar de expropriação e exploração da natureza; olhar teórico e desencantado. Seja na construção de um amor, seja na ilusão do mundo, seja na dimensão crítica da política, sempre existirá a possibilidade de interpretar o mundo e a vida através da arte. É justamente nesse sentido que se pode notar a importância dos rapsodos que tinham o impulso de buscar esse encantamento do mundo a partir da poesia.
Certamente, alguns irão cantar heróis desterrados e inspirados em outros padrões clássicos como Peri e seu amor por cecy, ou ridicularizar Odisseu e seu envergamento do arco sagrado com o novo herói Ubirajara que envegara três arcos de uma só vez. Outros denunciarão os heróis nascidos nas margens do rio Uraricoera que tem como característica principal a preguiça, mas, com o roubo da pedra sagrada, o herói Macunaíma segue para São Paulo em busca do resgate da cultura brasileira. O fato marcante é perceber que através da arte se pode produzir educação e transpor os limites das barreiras educacionais que vão do mundo da técnica para o mundo do saber e do imaginar.
A imaginação e o olhar artístico do mundo podem, talvez, redimir o homem moderno da destruição da natureza que ele mesmo proporcionou. A poesia que recompõe Dom Quixote e sua luta pelos moinhos de vento ao entender o encantamento estético da vida como um desafio estrutural e educacional: eis a possibilidade da arte na escola e na educação. Assim, o poeta torna-se também um arqueiro que lança ao vento palavras de grandes significações imaginárias e que transforma cosmogonias em belas fagulhas de saber. Que o encurvamento nas mãos do arqueiro seja a nossa alegria, pois assim como o povo anseia pela flecha do saber, também estes amam o arco que permanece estável. Ora, o desafio está lançado e a possibilidade está em aberto. A arte pode mostrar esse caminho, isto é, o caminho da redenção que o levaria o homem – o filho pródigo – ao encontro de sua casa: a natureza como obra prima da arte. O homem moderno, o homem de ciência, necessita de arte para viver. A questão é que esse homem ainda não compreendeu isso; ainda rumina ideias velhas, tais como a crença no pregresso científico e tecnológico. No entanto, onde essa crença levará o homem? Certamente não será ao encontro de sua mãe; a natureza. Tal encontro se abre, talvez, na perspectiva que falava Nietzsche: na interpretação do mundo através da arte e a existência experimentada como obra artística da natureza: eis o principal instinto do homem.


Comentários